15/06/2023 às 09h28min - Atualizada em 15/06/2023 às 09h28min

Os imigrantes sequestrados e torturados em uma das rotas mais perigosas do mundo

Aviso: este artigo contém descrições de violência e agressão sexual que alguns leitores podem achar perturbadoras.

Por Soran Qurbani, BBC
Foto: BBC

Aviso: este artigo contém descrições de violência e agressão sexual que alguns leitores podem achar perturbadoras.

Imigrantes - Uma investigação da BBC revelou que afegãos que fogem do Talebã estão sendo sequestrados e torturados por gangues enquanto tentam cruzar a fronteira entre o Irã e a Turquia a caminho da Europa.

Na sequência, as gangues enviam vídeos dos abusos para as famílias dos migrantes mantidos como reféns, exigindo pagamento de resgate para libertá-los, de acordo com os relatos feitos por várias vítimas e familiares à BBC.

Acorrentados pelo pescoço e presos por cadeados no topo de uma montanha, migrantes afegãos imploram por sua libertação. 

“Fui sequestrado ontem, eles estão exigindo US$ 4 mil (cerca de R$ 19,5 mil) para cada um de nós. Eles nos espancam dia e noite sem parar", diz um homem, com o lábio ensanguentado e o rosto coberto de poeira.

Outra video mostra um grupo de homens completamente nus, rastejando na neve enquanto alguém os chicoteia por trás.

"Eu tenho família, não faça isso comigo; tenho mulher e filhos, tenha piedade, por favor", um homem chora em outro vídeo, pouco antes de ser filmado sendo abusado sexualmente, enquanto era ameaçado com uma faca, por uma das gangues.

Esses vídeos perturbadores são evidências de uma atividade criminosa que vem crescendo, no qual gangues do Irã sequestram migrantes afegãos que tentam chegar à Europa.

Aqueles que tentam atravessar do Irã para a Turquia caminham por horas em um terreno montanhoso e seco, sem árvores ou qualquer outra sombra, o que torna mais difícil evitar as forças de segurança que patrulham a área.

Como centenas de milhares de pessoas fugiram do Afeganistão desde que o Talebã retomou o poder em agosto de 2021, as gangues viram uma oportunidade de lucrar com o grande aumento no número de migrantes que embarcam nesta jornada.

Muitas vezes com a colaboração dos contrabandistas, eles estão sequestrando pessoas no lado iraniano da fronteira, extorquindo dinheiro de grupos vulneráveis ​​que geralmente já pagaram grandes quantias para garantir uma passagem segura.

'Vamos matar suas filhas'

Um ativista que vem documentando os abusos nos últimos três anos nos disse que recebia dois ou três vídeos de tortura por dia.

Em um apartamento em Istambul, na Turquia, conhecemos Amina.

Ela tinha uma carreira de sucesso como policial no Afeganistão, mas fugiu do país quando percebeu que o Talebã ia retomar o poder, por ter recebido ameaças do grupo antes.

De fala mansa e usando um lenço roxo na cabeça, ela me contou sobre sua experiência na fronteira, quando ela e sua família foram feitas reféns por uma gangue.

"Tive muito medo, fiquei apavorada porque estava grávida e não tinha médico. Tínhamos medo de estupros."

O pai dela, Haji, nos contou que a gangue enviou um vídeo a ele mostrando a tortura de um afegão desconhecido depois que eles haviam sequestrado Amina e outros membros da sua família.

"Esta era a situação em que eu estava. Ao enviar esses vídeos, eles estavam me dando um aviso. Se você não pagar o resgate, vamos matar suas filhas e seu genro", diz ele.

Haji vendeu sua casa no Afeganistão para pagar a gangue e libertar sua família, que tentou novamente, desta vez com sucesso, entrar na Turquia.

Mas a provação de oito dias na fronteira foi demais para Amina. Ela perdeu o bebê.

Além das gangues, Amina e outros migrantes enfrentam outro grande obstáculo no caminho: o muro.

Cobrindo mais da metade da extensão da fronteira turco-iraniana, ele tem três metros de altura e é reforçado com arame farpado, sensores eletrônicos e torres de vigilância financiadas pela União Europeia.

A Turquia começou a construir o muro em 2017 para impedir que os migrantes entrassem no país, mas eles continuam chegando.

Amina e vários outros migrantes nos disseram que caíram nas mãos de gangues violentas no lado iraniano depois que as autoridades turcas os fizeram voltar pela fronteira durante a noite, acusações que também foram documentadas por grupos de direitos humanos internacional.


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